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BLOODY MONDAY - THIS REPORT IN ENGLISH [LabourNet translator: Greg Dropkin]


Repressão violenta em Santos deixa 50 feridos e 35 estivadores são presos no oitavo dia do movimento em defesa do trabalho
DIA DE CÃO NA SEGUNDA, 2 DE ABRIL, LEMBRA A ÉPOCA DA DITADURA MILITAR

Foto jornal Expresso Popular Imagem da TV Mar

Tropas da Polícia Militar do Governo do Estado de São Paulo promoveram na segunda-feira, dia 2 de abril, a mais violenta onda de repressão dos últimos dez anos em Santos, ferindo 50 estivadores e prendendo outros 35, no oitavo dia da greve em defesa do direito de trabalho. Foram usadas bombas de "efeito moral", de alto teor explosivo e embalagens plásticas, bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha, durante ataque aos manifestantes.

Foto jornal O Diário Foto jornal A Tribuna
Manifestantes foram presos nas ruas e mesmo em casas de moradores da cidade que abriram suas portas para abrigá-los e que foram invadidas pelos policiais militares. Os feridos só receberam atendimento médico por intervenção de vereadores e deputados, que exigiram que fossem levados ao serviço de saúde da cidade. Depoimentos de moradores das proximidades da área do conflito, no bairro do Macuco, foram unânimes em condenar a força excessiva utilizada pelos militares contra os trabalhadores.

Imagem da TV Mar Imagem da TV Mar
Manifestações pacíficas sucediam-se nas ruas centrais de Santos e nos bairros próximos ao cais do porto desde o início da manhã. À tarde a tropa policial transferida de São Paulo (o governo do Estado e empresários não confiam nas tropas locais) atacaram os manifestantes com fúria, iniciando o grande conflito entre tropas equipadas e manifestantes desarmados, que utilizaram pedras retiradas das ruas para defesa.

Imagem TV Mar Os choques generalizaram-se pelas ruas e durante toda a tarde Santos parecia ter voltado aos piores dias da ditadura militar no Brasil. Os militares estavam totalmente descontrolados e não havia um comando ordenado nas ações. Os choques sucederam-se por longo período, com emprego de disparos de balas de borracha e lançamento de bombas explosivas e de gás. Os trabalhadores reagiram com pedras retiradas do calçamento das ruas.

Imagem TV Mar Imagem TV Mar Imagem TV Mar

28 navios estão parados no porto, nas áreas de cargas gerais, contêineres e grãos à granel, no cais público. Entretanto os terminais privativos estão operando sem a presença de trabalhadores sindicalizados e sem autorização judicial, conforme o Sindicato dos Estivadores de Santos. Esse é um dos fatores que acirram os ânimos. Na terça-feira, dia 3, pela manhã, como reação à violência policial, 19 sindicatos de trabalhadores portuários ligados à Intersindical Portuária do Estado de São Paulo declararam seu apoio à greve dos estivadores e aderiram à paralisação que agora estende-se a todo o porto e também aos sistemas de transporte, com a adesão do Sindicato dos Transportadores (caminhoneiros), paralisando totalmente as operações de saída e recepção de mercadorias.

Imagem TV Mar Imagem TV Mar Imagem TV Mar

A paralisação que foi iniciada devido à decisão de transferir para os empresários, através do Órgão Gestor de Mão-de-Obra, a escalação dos trabalhadores para as operações, agora assumiu o caráter de defesa do trabalho organizado e sindicalizado, pela insistência dos terminais e empresas operadoras em trabalhar sem estivadores. A escalação é feita pelo Sindicato há 67 anos. A tendência na terça feira, dia 3, era de ampliação da greve, com fortes pressões contra as federações nacionais (omissas até aqui, conforme os trabalhadores) e de generalização para outros portos, como o do Rio de Janeiro, onde os estivadores já decidiram não descarregar navios desviados de Santos.

Imagem TV Mar Imagem TV Mar
Na noite de segunda, dia 2, os estivadores realizaram assembléia na praça Mauá, defronte à Prefeitura de Santos, onde reafirmaram a continuidade do movimento. Mesmo depois de dois confrontos graves com a Polícia Militar, o ânimo os trabalhadores parece elevado e, a menos que surgisse uma proposta adequada dos empresários ou do governo, o movimento tem fôlego para prosseguir. A escalação do trabalho poderia ser discutida — os trabalhadores mostravam-se dispostos a isso. Mas a ameaça representada pela operação dos terminais privados sem estivadores sindicalizados parece levar a um impasse crescente e sem solução.

Imagem TV Mar O presidente do Sindicato dos Estivadores de Santos, Vanderlei Jose da Silva, responsabiliza o contra-almirante José Ribamar Miranda Dias, presidente do Grupo Executivo de Modernização dos Portos (Gempo), um organismo do governo federal, pela radicalização do problema. "Ele está inclusive desmoralizando o Ministério Público do Trabalho (Promotores de Justiça do Trabalho), porque ele manda e ponto final. Dá ordens por telefone. O Ministério Público está se comportando como se fosse advogado dos patrões", disse à assembléia. "A decisão da Intersindical em apoiar ativamente o movimento representa escrever uma página na história que nossos filhos e netos vão se orgulhar de ler no futuro."

Imagem TV Mar Disse Vanderlei: "O Ministério Público não deixa a gente negociar, apresenta ordens e não quer nos ouvir. Movimentamos o maior porto da América Latina há mais de cem anos sozinhos, escalando o trabalho, elaborando métodos. Há 67 anos o método atual é eficiente, resultado de aprendizado, de tentativa e erro, é um modelo testado. Então é fácil concluir que o objetivo não é alterar a escalação, mas liquidar o trabalho sindicalizado. O que eles chamam de sistema moderno ditado pela globalização, para os trabalhadores não passa de saudade da escravidão e da exploração do trabalho aos moldes do seculo 19, em pleno século 21. Eles querem revogar cem anos de história. Não poderemos olhar para nossos filhos, nossas famílias, se nos deixarmos abater sem luta. Já não se trata apenas do trabalho, mas de certa forma, do mundo que legaremos a eles. Essa é a luta moderna dos trabalhadores, por mais que queiram nos apontar como inimigos da atualidade globalizada."


UMA PALAVRA DO AUTOR - Conheci os Estivadores de Santos e suas lutas valentes muito antes de chegar a Santos para viver, em 1970. Foi nos anos 60, com um velho amigo judeu que me mostrava livros sobre embates humanos que alteraram o curso da história. Li em alguns dos primeiros, mais que o fato, a esperança brilhante acesa na mente dos republicanos espanhóis, por uma ação dessa brava gente do cais de Santos.
Eles se recusaram a embarcar o café que o governo brasileiro cedera gratuitamente a Francisco Franco, em plena guerra civil espanhola. Resistiram às pressões governamentais e militares. Numa greve deflagrada após violenta repressão, muitos morreriam nas ruas dessa cidade do Atlântico sul, apenas pela opinião de que o Brasil não poderia ajudar a escória franquista contra os republicanos. Estivadores são, antes de tudo, republicanos. Seus vizinhos são os que estão além do oceano. E além do mar, naquele momento, estava a Espanha e seus sonhos. Os deles e os nossos, se posso dizer assim.
Morreram anônimos. Não se sabe os nomes dos que tombaram. Não há monumentos nem um Lorca que os cantou. Estão vivos, porém, em seu modo de dizer "no pasarán".
Li no velho livro como se cantava nas trincheiras espanholas a bravura daquela gente desconhecida do outro lado do mundo, capaz de um internacionalismo solidário que confortou noites mal dormidas e dias duros. Gosto de pensar que, pela longa companhia e amizade, posso me dizer também partícipe dessa bela história. Não sendo, sou estivador de Santos.


Esta é uma web-reportagem militante do jornalista Mauri Alexandrino.
mauri@viasantos.com

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