O debate que se evita travar
De: Mauri Alexandrino
Jornalista. Não espírita, mas simpatizante, se é que isso pode existir.
mauri@viasantos.com
Em: 27/11/2001
Concordando aqui com o texto de José Pascoal Vaz, gostaria de acrescentar uma outra dimensão ao problema da desigualdade, aí a nível mundial.
Em minha opinião o planeta caiu em uma armadilha perversa, cujos componentes principais têm enfrentado uma série de dificuldades (quando não a censura pura e simples) para que sejam debatidos como se deve.
O primeiro deles é o das armas de destruição massiva. Fato: neste início de século XXI consolidou-se a tendência que já vinha aparecendo na segunda metade do século XX, de que as únicas vozes ouvidas nos momentos de crise aguda são as dos países que têm capacidade nuclear. É um dado indiscutível face os recentes arranjos diplomáticos derivados do episódio de setembro e da guerra que se seguiu e prossegue. Devemos nos armar todos para tornar as relações internacionais mais simétricas nos momento de crise como a atual e que, afinal, podem interferir na vida de todos? A voz dos povos deve (ou terá de ser) atrelada a arsenais nucleares?
O segundo ponto é ainda mais espinhoso: Já não basta hoje que a qualidade de vida melhore para os povos subdesenvolvidos e em desenvolvimento; é preciso que a qualidade de vida de estadunidenses e europeus seja reduzida! Esse é um nó muito grave. Se os seis bilhões de habitantes do planeta pudessem viver como estadunidenses ou europeus, não haveria mundo suficiente, em espaço, em recursos naturais ou capacidade planetária de reciclar o ambiente. Estaremos, a maioria, condenados à miséria para que parte da humanidade viva no excesso? Como manter padrões de vida (que até por força da mídia dominada pelos mesmos países se tornam "padrões") projetados para 1,5 bilhão de pessoas num mundo de 6 bilhões?
Posso parecer apocalíptico aqui, mas me parece que esse é o fundo real do problema atual e dos futuros, mesmo que travestidos de fundamentalismo religioso ou político, a cada vez que se tornam ações concretas. Esses, religião e ideologia, em minha opinião, são apenas catalizadores de uma reação que está em curso e prosseguirá, com os mesmos efeitos, com ou sem os catalizadores. Como na química, eles apenas aceleram as reações, mas não invertem sua ordem natural.
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