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  • O Outro Mundo é Aqui
    Escreve: José Rodrigues
    Em: 4 de maio de 2002

  • Sob o princípio de que “um outro mundo é possível”, representantes alinhados com a esquerda de 131 países, que se reuniram em Porto Alegre no Fórum Social Mundial, levantaram a questão dos gastos para fins bélicos, um dos exemplos do paradoxo das nações e da sociedade. Esses dispêndios giram em torno de US$ 800 bilhões por ano. Contra-ponto a outro encontro internacional, o Fórum Econômico Mundial, desta vez realizado em Nova Iorque, ambos no início de fevereiro de 2002, o de Porto Alegre, em sua segunda edição, busca uma alternativa às forças econômicas, que têm privilegiado o mercado. Sem um sentido humanitário e fraterno que o conduza, mas o da acumulação, o dito mercado tem por detrás corporações, acionistas, partidos, lobbies sobre governos, que tendem à exclusão social de populações subalternas. A sanção das desigualdades deve responder por uma parte daqueles 800 bilhões de dólares, 36% dos quais de responsabilidade dos Estados Unidos.

    Outro número 800 retrata uma face que o fórum de Nova Iorque desejaria esconder. Pois cerca de 800 milhões de pessoas vivem com menos de o equivalente a um dólar por dia, característica de populações abaixo da linha de pobreza, na verdade, da miséria.

    Essa vergonhosa situação não pode ser mais colocada como efeito da incultura dos povos, como se fossem presas de um atavismo de origem, de uma condenação eterna ao subdesenvolvimento. Itens como pesquisa e desenvolvimento, inovação tecnológica, registro de patentes, subsídios à produção agrícola, permeiam as causas das diferenças entre ricos e pobres. Espionagem, financiamento de revoluções e contra-revoluções, trabalham por um status quo, no qual elites costumam se sobrepor e para quem não há crises. Números. O orçamento do Pentágono, em crescimento, chegará a 2007 equivalente a US$ 451 bilhões. Os subsídios agrícolas do mundo rico, que significam a transferência de renda da população em geral para poucos privilegiados, está na ordem de US$ 1 bilhão por dia. Graças a esses subsídios, a produção dos países concorrentes, boa parte tentando sair da pobreza, não consegue ser exportada, a menos que o seja a preço vil. Os subsidiados usam o poder do voto nos parlamentos para fazerem valer suas intenções.

    Essas reflexões devem integrar a discussão do meio espírita, cujo instrumental é vasto e profundo. Há posições lapidares transmitidas pelos espíritos a Allan Kardec, sobre os bens, que parecem morrer nas páginas laboriosamente escritas pelo professor de Lion. “Há homens insaciáveis, que acumulam sem proveito para ninguém ou apenas para satisfazer as suas paixões”, diz uma delas. São conceitos que se colocam como alavancas políticas da transformação. Sem tergiversar, um espírito aceita que o desejo de possuir é natural, “mas quando o homem só deseja para si e para sua satisfação pessoal, é egoismo”.

    Presente ao encontro de Porto Alegre, Fausto Bertinotti, um dos dirigentes da Refundação Comunista italiana, comentou ser este “um mundo em que a renda de 600 milhões de pessoas em 43 países equivale ao patrimônio de três milionários. Em 1820, a renda dos países ricos correspondia a três vezes a dos países pobres. Depois da Segunda Guerra Mundial, esta relação pulou para 30 vezes e atualmente corresponde a 80 vezes”.

    Essas anomalias sociais acabam por se refletir na qualidade de vida das pessoas, no frágil combate e prevenção de doenças, na insegurança geral, nas migrações de povos, na separação das famílias. Estrangeiros sobrevivem na ilegalidade como sub-raças, ou se protegem em guetos, marcados por um mundo dividido, à espera de um momento de liberdade e igualdade.

    A consciência espírita, sob o primado imortalista, há de reconhecer que esse presente não satisfaz, que sobrelevam injustiças, que os mais fortes oprimem os fracos, mas ainda é pouco. O otimismo do progresso, que parece anestesiar um engajamento consciente em favor das mudanças, está a exigir ações determinadas de indignação com as desigualdades. Por isso, há um trabalho no campo pessoal de cada um no sentido de mudar para melhor o meio físico e humano, mas sob uma visão política, aquela que distingue o sentido do vento soprado pelos dirigentes maiores da nação. A mesmice religiosa costuma atribuir ao divino o que não passa de humano, às vezes com requintes de exploração da fé.

    Os fóruns, tanto o econômico, como o social, em alguns momentos parecem até confluir, o primeiro em confissões de mea culpa, e o segundo em propostas de esperança. Por certo, a matéria-prima espírita está pronta para ser elaborada, em configurações de políticas sociais de longo alcance, mas precisa ser apresentada e debatida pelos próprios espíritas.

    José Rodrigues, jornalista e economista, é um dos coordenadores do site Pense-Pensamento Social Espírita.