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  • A Mediunidade e a Reencarnação
    Escreve: Eugenio Lara
    Em: São Vicente, julho de 2002

  • A análise de fenômenos de caráter psicológico, interpessoal, psíquico ou parapsíquico sob a ótica da palingenesia se constitui numa grande dificuldade metodológica, epistemológica e experimental. Falta um método que se correlacione com as ciências do comportamento, uma estrutura gnoseológica ainda em fase de gestação segundo a concepção espírita e informações confiáveis acerca dos processos reencarnatórios. Quando essa análise se dá em relação aos processos sociais, aos fenômenos históricos, a complexidade se amplia.

    Dizia o sociólogo portenho Humberto Mariotti, que a reencarnação é o sentido da história. Trata-se de uma concepção, de certo modo específica, apesar de abrangente. Preferimos o sentido dado pelo pensador espírita argentino Manuel S. Porteiro, ao entender a história como um processo, um caminhar evolutivo, dialético, progressivo, onde as manifestações individuais e coletivas, em seu sentido teleológico, volitivo e causal se engendram numa rede de transformações e experienciações que vão aos poucos se formando, através de rupturas quantitativas e qualitativas.

    Buscar o entendimento do social sob a ótica do processo palingenético significa considerar um outro componente desprezado pelos estudiosos dos fenômenos sociais: o princípio inteligente como um agente ativo, o espírito, uma das forças dinâmicas da natureza. Nada mais nada menos do que um homem, extra-corpóreo, um ser interexistencial, uma inteligência extra-cerebral que se organiza, se estrutura e age segundo os mesmos processos aos quais estão sujeitos os seres humanos encarnados. Mesmos processos significa mesmas leis que regem o universo moral, já que a jurisprudência humana se aplica a quem está vivo, encarnado e vivendo em relação consigo e com o mundo.

    Os Espíritos, segundo a filosofia espírita, influenciam o processo histórico através da reencarnação e da mediunidade. Pela reencarnação se inserem novamente no contexto existencial e social. Mediante a mediunidade, produzem manifestações de toda ordem, muito bem classificadas por Allan Kardec como inteligentes ou físicas.

    Essas manifestações, amiúde, não se limitam aos conhecidos fenômenos de poltergeist, o movimento dos raps ou as mesas girantes do século retrasado. São abrangentes, insidiosas e penetrantes. Ocorrem, de forma organizada ou não, nas instituições, nos grupos sociais.

    Não queremos nos referir à paranóia de que tudo é obsessão, de que qualquer acontecimento nefasto tem o “dedo dos Espíritos”, de que eles nos dominam, que estamos à mercê dos obsessores. Essa visão, de tão ingênua que é, nem merece ser refutada.

    Nos referimos à interação entre o mundo físico e o extra-físico. Entre os homens (Espíritos) e os Espíritos (homens). Entre grupos de encarnados e de desencarnados. Trata-se de uma questão meramente ambiental, ecossistêmica. O ecossistema físico interage com o extra-físico, compondo um todo, duas faces de uma mesma moeda, inseparáveis, apesar de que, o extra-físico, chamado pelos Espíritos de mundo primitivo, sobrevive ao físico, ao menos teoricamente, supondo, por exemplo, uma hecatombe nuclear que liquidasse o sistema solar.

    Sob o ponto de vista ambiental, ecológico, os Espíritos constituem um componente ainda desconsiderado pelas ciências, não somente pela ausência de uma comprovação científica mais rigorosa, conforme os critérios e o paradigma da ciência atual, mas também, e sobretudo, pelo preconceito com uma tese que sempre se achou sob o domínio das religiões.

    Na medida em que nos vários ramos da ciência, incluindo-se obviamente a ciência espírita, a idéia do ser humano como uma criatura pré e pós-existente for ganhando corpo, inevitavelmente haverá desdobramentos nos diversos campos do conhecimento. O Espírito deverá ser considerado como um agente capaz de promover mudanças, de se inserir no processo histórico, de contribuir para o progresso ou mesmo impedir que ele se processe.

    A mediunidade e a reencarnação deverão ser considerados como dois conceitos capazes de explicar a ação dessa “nova” inteligência, que se manifesta mediante o processo de comunicação mediúnica e o processo palingenético. São esses os dois componentes básicos para uma reflexão espírita sobre o social, temperados pela ética, pelos princípios de valores contidos na filosofia espírita.

    Construções teóricas realizadas pelos vários setores da cultura, por correntes filosóficas, por ideologias, são sempre bem-vindas na medida em que o Espiritismo toca em todos os ramos do conhecimento, “da física e da metafísica”, como afirmou Kardec. Mas isso não significa que a formulação teórica dos fenômenos sociais sob a ótica espírita fique dependente e seja determinada por ideologias de caráter socialista, anarquista ou liberal.

    O Espiritismo não é socialista, libertário ou neoliberal. Não faz apologia do capitalismo e muito menos do socialismo, ainda que pensadores como Léon Denis ou Cosme Mariño tenham sido socialistas e adeptos dessa ideologia, tanto quanto pensadores espíritas simpáticos ao capitalismo ou anarquismo.

    O pensamento social espírita, em processo de construção, possui elementos próprios de análise, uma fundamentação singular em comparação com as ideologias políticas. Possui um caráter sobretudo humanista, voltado para o bem-estar da humanidade, o progresso dos seres e das coisas. E, ao mesmo tempo, proporciona uma visão prática para o estar no mundo, tanto como uma concepção utópica (no sentido de uma projeto possível), idealista, na construção de uma sociedade onde o egoísmo, a exploração, a fome, a miséria, o terrorismo, a absurda concentração de renda e tantas outras mazelas sejam completamente expelidas.

    Eugenio Lara, arquiteto e jornalista, é um dos coordenadores do site Pense – Pensamento Social Espírita
    E-mail: eugeniolara@uol.com.br