O poder de veto das pessoas comuns
De: Mauri Alexandrino
Jornalista
mauri@kbrtec.com.br
Em: 24/02/2003
Meu espírito voou como uma águia dia 15 de fevereiro. Impossível não sentir orgulho das imensas multidões reafirmando, em mais de cem países, que a praça é do povo como o céu é do condor.
Não, não foi preciso participar diretamente das manifestações. A percepção de um fato histórico entra pelos sete buracos de nossa cabeça. Silencia o jogo da noite sangrenta, a sua presença.
Dezoito milhões de votos contra a guerra. Dados com os pés. As marchas percorreram ruas e nossas entranhas. Carregaram com elas nossas vozes, centenas de milhões.
Não importa se cada grupo tem sua própria agenda, tão prosaica quanto defender raposas ou tão improvável quanto eliminar as máquinas. A sabedoria indica que nas crises não adianta discutir divergências, mas agir sobre o que une.
Dizem que os bons sujeitos parecem não se dispor a morrer por suas crenças, enquanto os maus sujeitos sim. Gandi respondia que a política do olho-por-olho deixará todos cegos. Dizem que só a liberdade que desfrutamos, e que falta em boa parte do mundo, é que permite tal manifestação. Mas a melhor maneira de convencer alguém certamente não é apontando armas.
Não importa sequer se nada mudar. Temos de ter grande júbilo com essa garotada que, armada de internet e telefone, conseguiu a proeza de organizar, em menos de dez dias, o maior protesto que já se viu.
Mostraram que tecnologia é ferramenta, contrapondo ao temor do controle do indivíduo a irremovível convicção de que o fruto do progresso científico é patrimônio coletivo.
Não há heroísmo como o do jovem chinês impedindo a passagem dos tanques em 1989, uma das marcantes imagens do século passado. Não tem a disciplina da campanha contra a guerra do Vietnam, uma das mais bem sucedidas da história. Mas guarda em comum com os dois casos a força moral profunda que espalha suas próprias sementes.
Por prudente constatação, nenhum dos lados em conflito é santo nem está desarmado, não são críveis, um e outro. Logo, apoiar ninguém. A força moral reside em denunciar a insanidade do uso de arsenais que matam em tal quantidade que não há vitória possível.
Assim, ainda que por horas, erigiu-se um poder pacífico e de muitos credos, apontando a promessa de que os mansos herdarão a Terra. Poder que emana da vida e em seu nome será exercido. Um que exala a aldeia onde vivemos, tão grande e tão pequena.
Presenciamos, em toda sua dimensão épica, o primeiro ensaio geral do poder de veto das pessoas comuns.
Ave, audazes pacificadores! Bem-aventurados, porque sereis chamados filhos de Deus.
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