Evitar as causas
De: José Rodrigues
Jornalista e economista, um dos coordenadores do site Pense.
zero@carrier.com.br
Em: 26/02/03
A guerra significa uma sentença de morte. Nada mais há a negociar, esgotadas que foram todas as alternativas. Dizer que há guerras “necessárias”, significa que um dos lados, por meios violentos, sufoca o outro, levando-o à perda de sua identidade histórica, da soberania, do território, conduzindo-o à escravização, enfim, à extinção do bem maior, a liberdade. Alguns milhares de quilômetros separam Washington de Bagdá, portanto, sequer há problemas de fronteiras, que costumam gerar conflitos entre nações vizinhas. Nem mesmo a hipótese de participação do governo iraquiano no 11 de Setembro foi confirmada, enquanto o país sofre um bloqueio econômico, resultante do conflito com o Kuweit, em 1991, atribuído pela Cruz Vermelha como uma das causas do aumento da mortalidade infantil iraquiana.
Saddam Hussein, por ser um ditador, não merece e não tem simpatias da comunidade internacional. Ainda assim, como em todas as nações, há governo e povo, no caso, cerca de 24 milhões de pessoas, alvo da obstinada intenção norte-americana de declarar guerra, sob o pretexto da existência de armas de destruição de massa. Por paradoxal, no conflito Irã-Iraque, os Estados Unidos e outras nações ricas apoiaram o Iraque, armando-o generosamente.
Situado em um dos berços da história da humanidade, a ex-Mesopotâmia, o Iraque, com uma área pouco superior ao Estado de Minas Gerais, parece cometer o “pecado” de repousar sobre imensas jazidas de petróleo.
A dependência norte-americana de petróleo é vasta. O país consome 30% do óleo cru produzido no mundo e tem apenas 6% das reservas, cuja maioria – 65% - está no Oriente Médio. O padrão consumista dos Estados Unidos precisa ser mantido a qualquer preço. E, por trás de todas as “negociações”, estão os grupos empresariais, com os quais o texano (por formação) George W. Bush, em termos petrolíferos, tem muita afinidade. Torna-se difícil, assim, desvincular os interesses econômicos e geopolíticos do objeto guerreiro. Este parece se aliar também a uma necessidade de afirmação do presidente republicano, na liderança de um país que passa a acumular perigosos deficits de conta corrente, depois de ter sido alvo de inimaginável ataque terrorista, em 2001.
São fatores que não legitimam a iniciativa do conflito. Será um retrocesso nas relações internacionais, pela violência oficializada que se pretende impor, seguida de destruição de patrimônios e geração de dores e sofrimentos inúteis. Pela tese espírita (“Qual a causa que leva o homem à guerra?. – Predominância da natureza animal sobre a espiritual e satisfação das paixões”.Allan Kardec), o antídoto à guerra está no evitar suas causas. É um trabalho junto aos interesses que comandam a vida, sob uma visão de igualdade natural e um destino cósmico, tendo como eixo a solidariedade. Por enquanto, Hussein e Bush se merecem, nas devidas proporções. Cada um, a seu modo, está fora de um tempo que se sonha de liberdade política incondicional, de respeito à pessoa e ao local, com repúdio a patrulhamentos ideológicos que escondam tentativas de hegemonia econômica. Ambos, e neste momento precisamente Bush, não têm o direito de transbordar para o mundo suas paixões, muito menos de expor ao risco de morte seus concidadãos e cidadãos de todo o planeta.
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