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FOME ZERO - COMPROMISSO MAIOR
De: Milton Rubens Medran Moreira
Advogado, jornalista.
Presidente da Confederação Espírita Pan-Americana.

medran@pro.via-rs.com.br
Em: 01.05.2003


À primeira vista, uma campanha do tipo "Fome Zero", enunciada singelamente pelo Presidente Lula, com a chamada: "que todo o brasileiro tenha direito a três refeições por dia", pode preocupar. Leva ao temor do puro e simples assistencialismo, incapaz de atacar as causas essenciais da fome que são o analfabetismo, as condições precárias do sistema de saúde, o desemprego e a ignorância generalizada.
Mas um governo que chega fortalecido pela quase unanimidade nacional, que tem como personalidade maior um presidente vindo das classes mais humildes da população, que trabalhou e, trabalhando, sofreu todas as agruras reservadas à classe operária num país escandalosamente injusto, um governo assim tem a obrigação de dar consistência maior a um programa dessa natureza.
A enunciação do Presidente para mim soa como um programa emergencial, capaz de dar a condição mínima de dignidade para milhões de brasileiros que estão à margem de tudo e que jamais poderão experimentar qualquer inserção social se não forem emergencialmente retirados do estado de fome em que se encontram, num primeiro ato de dignificação humana.
O argumento cabível a justificar essas medidas emergenciais, assim, "mutatis mutandi", é o mesmo de que se utilizam instituições caritativas, muito encontradiças no movimento espírita, que dão sopa aos pobres e que atraem miseráveis que ali comparecem diariamente para receber o prato quente. Dizem os mentores desses programas que é preciso, em primeiro lugar, matar-lhes a fome para, depois, lhes poderem oferecer algum alimento ao espírito. A oferta deste último, porém, exige um pouco mais do que o esforço de recolher ingredientes para uma sopa e cozê-la. É esforço intelectual e organizacional que exige fundamentação teórica, técnica e científica que, quase sempre, terminam sendo postergados.
Honestamente, creio que os planos governamentais estão sabendo prever e executar as medidas de significado mais profundo que implicarão em retirar os alimentandos socorridos pelo "fome zero" da miséria intelectual e moral em que, em grande parte, estão enchafurdados. Há de ser, espero, um grande programa de resgate social, de luta contra o analfabestimo, contra o abandono da saúde, da educação, contra, enfim, a exclusão social a que milhões de criaturas foram condenadas nestes cinco séculos de proteção às elites.
Mas, não tem mesmo outro jeito de começar que não este. Não se promove social e espiritualmente um indivíduo faminto. A fome atinge as entranhas do espírito. Como escreveu, certa feita, o grande poeta espanhol Federico Garcia Lorca, "o dia em que for debelada a fome no mundo, háverá uma grande explosão de espiritualidade". Entenda-se como espiritualidade a real possibilidade de fruição e gozo dos direitos essenciais à felicidade do homem.


 
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