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Soja brasileira engorda gado europeu
De: José Rodrigues
Jornalista e economista.

zero@carrier.com.br
Em: 16/05/2003


Se as desigualdades são profundas, tem-se que atalhar caminhos. Esperar que a economia cresça – sob a especulação financeira internacional, mais a produção deliberada de conflitos bélicos - para se implantarem políticas de acesso ao alimento básico, significa perpetuar as diferenças. Elas nos chocam. Panelas vazias, habitações precárias que escalam morros e invadem mangues, mortes nas filas de espera por um atendimento público, fazem uma cara do Brasil, que até parece natural. As pessoas se acostumam com imagens degradantes e perdem a capacidade da indignação. Lembram-se, sim, da pobreza, quando explodem atos de violência. Ou a tudo ignoram, culpando os pobres pelo próprio infortúnio. Mas uma sociedade com o mínimo de dignidade, não pode concordar com esse quadro. Em razão disso, o Programa Fome Zero, ou qualquer outro que a este se assemelhe, é necessário.
Além de tudo, a sociedade conta com sobras, desperdícios, obesos e obesas por excessos gastronômicos, as famílias urbanas alimentam regiamente cães e gatos, e o país é largamente superavitário na balança comercial de produtos agroindustriais. O gado europeu é engordado com a soja brasileira.
Duas questões básicas cabem no tema. Não humilhar a quem recebe o favor e não considerá-lo um fim. No primeiro caso, a forma de sua aplicação, com a transferência de dinheiro em lugar do alimento é positiva. Dá um certo grau de liberdade a quem recebe, cria mercados regionais e pode potencializar progressos, a partir de uma distribuição direta de renda. A comprovação dos gastos, flexível, corrige distorções. No segundo, tem-se que insistir na temporariedade do programa. Afinal, onde estão as causas das profundas desigualdades? Na baixa escolaridade, na escassez de recursos de infra-estrutura, na falta de investimentos de apoio à produção local, na perversa redistribuição de renda. As “oportunidades” costumam aparecer em outros centros.
A comunidade espírita sempre se mobilizou nessa área. Até com insistência, portanto, não a surpreende quanto à sua necessidade. O novo está no engajamento de setores que até então se alheavam ao problema. A responsabilidade social tem-se ampliado nas cogitações empresariais, sinal de que o setor privado não mais vê o governo como único responsável por ações que levem ao progresso geral. Evidência de que o crescimento econômico e humano tem de ser feito de mãos dadas.






 
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