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A fome segundo o Espiritismo
De: Eugenio Lara
Arquiteto e jornalista, membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc), do Instituto Cultural Kardecista de Santos e um dos coordenadores do site PENSE - Pensamento Social Espírita.

eugeniolara@uol.com.br
Em: 17/06/2003


O Programa Fome Zero pode ser visto como um produto de marketing de um governo de "esquerda" que busca a simpatia de setores mais conservadores da sociedade, como uma prática paternalista e assistencialista que não irá resolver a questão da fome, pois no caso o melhor seria aumentar a produção, distribuição e consumo, um tripé fundamental para que esse flagelo seja eliminado de forma definitiva. Ainda assim, esse projeto deve ser apoiado de modo efetivo pelos cidadãos espíritas, que possuem uma tradição de trabalho voluntário voltado para os mais humildes e necessitados.

Esse é um projeto que pode alavancar a atividade assistencial realizada pelo chamado Terceiro Setor e com isso milhões de pessoas serão beneficiadas. A proposta de se desenvolver um Programa Fome Zero em nível mundial, como propôs o presidente Lula, também deve ser aplaudida e o Brasil pode servir como modelo.

O Espiritismo vê a fome como um flagelo, fruto de uma sociedade desorganizada, injusta e autoritária, onde as leis e o sistema econômico beneficiam uma minoria em detrimento da grande maioria. Apenas como recurso didático, vejamos a seguir, em “O Livro dos Espíritos”, o que o pensamento social espírita tem a nos ensinar sobre esse tema:

“Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome.” (P. 930)

Na primeira linha dos flagelos destruidores, naturais e independentes do homem, devem ser colocados a peste, a fome, as inundações, as intempéries fatais às produções da terra. Não tem, porém, o homem encontrado na Ciência, nas obras de arte, no aperfeiçoamento da agricultura, nos afolhamentos e nas irrigações, no estudo das condições higiênicas, meios de impedir, ou, quando menos, de atenuar muitos desastres? Certas regiões, outrora assoladas por terríveis flagelos, não estão hoje preservadas deles? Que não fará, portanto, o homem pelo seu bem-estar material, quando souber aproveitar-se de todos os recursos da sua inteligência e quando aos cuidados da sua conservação pessoal, souber aliar o sentimento de verdadeira caridade para com os seus semelhantes? (P. 741)

São os homens e não Deus quem faz os costumes sociais. Se eles a estes se submetem, é porque lhes convêm. Tal submissão, portanto, representa um ato de livre-arbítrio, pois que, se o quisessem, poderiam libertar-se de semelhante jugo. Por que, então, se queixam? Falece-lhes razão para acusarem os costumes sociais. A culpa de tudo devem lançá-la ao tolo amor-próprio de que vivem cheios e que os faz preferirem morrer de fome a infringi-los. (P. 863)

923. O que para um é supérfluo não representará para outro, o necessário, e reciprocamente, de acordo com as posições respectivas?
“Sim, conformemente às vossas idéias materiais, aos vossos preconceitos, à vossa ambição e às vossas ridículas extravagâncias, a que o futuro fará justiça, quando compreenderdes a verdade. Não há dúvida de que aquele que tinha cinqüenta mil libras de renda, vendo-se reduzido a só ter dez mil, se considera muito desgraçado, por não mais poder fazer a mesma figura, conservar o que chama a sua posição, ter cavalos, lacaios, satisfazer a todas as paixões etc. Acredita que lhe falta o necessário. Mas, francamente, achas que seja digno de lástima, quando ao seu lado muitos há, morrendo de fome e frio, sem um abrigo onde repousem a cabeça? O homem criterioso, a fim de ser feliz, olha sempre para baixo e não para cima, a não ser para elevar sua alma ao infinito.”

929. Pessoas há, que, baldas de todos os recursos, embora no seu derredor reine a abundância, só têm diante de si a perspectiva da morte. Que partido devem tomar? Devem deixar-se morrer de fome?
“Nunca ninguém deve ter a idéia de deixar-se morrer de fome. O homem acharia sempre meio de se alimentar, se o orgulho não se colocasse entre a necessidade e o trabalho. Costuma-se dizer: “Não há ofício desprezível; o seu estado não é o que desonra o homem.” Isso, porém, cada um diz para os outros e não para si.”

947. Pode ser considerado suicida aquele que, a braços com a maior penúria, se deixa morrer de fome?
“É um suicídio, mas os que lhe foram causa, ou que teriam podido impedi-lo, são mais culpados do que ele, a quem a indulgência espera. Todavia, não penseis que seja totalmente absolvido, se lhe faltaram firmeza e perseverança e se não usou de toda a sua inteligência para sair do atoleiro. Ai dele, sobretudo, se o seu desespero nasce do orgulho. Quero dizer: se for quais homens em quem o orgulho anula os recursos da inteligência, que corariam de dever a existência ao trabalho de suas mãos e que preferem morrer de fome a renunciar ao que chamam sua posição social! Não haverá mil vezes mais grandeza e dignidade em lutar contra a adversidade, em afrontar a crítica de um mundo fútil e egoísta, que só tem boa-vontade para com aqueles a quem nada falta e que vos volta as costas assim que precisais dele? Sacrificar a vida à consideração desse mundo é estultícia, porquanto ele a isso nenhum apreço dá.”

“Com uma organização social criteriosa e previdente, ao homem só por culpa sua pode faltar o necessário. Porém, suas próprias faltas são freqüentemente resultado do meio onde se acha colocado. Quando praticar a lei de Deus, terá uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade e ele próprio também será melhor.” (P. 930)

Pelo que vemos acima, o Programa Fome Zero poderia muito bem ter sua fundamentação ética nesse conjunto de valores altamente avançado para a época em que foi lançado (1857) e que ainda permanece atual, como um roteiro eficiente de reestruturação moral e social.


 
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