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  • Uma teoria espírita para os juros
    Escreve: José Rodrigues
    Em: Outubro 2008

  • A prática de juros, entendida como o efeito do dinheiro gerar dinheiro e provocar maior acumulação de capital , na denominação histórica de usura, mesmo combatida por grandes códigos da humanidade, está na base da maioria das crises econômicas e de desigualdades sociais. O tema permeia o Velho Testamento, passa pelo Corão e pela Torá e deságua em muitas constituições de países, que tentam impor um limite a esse retorno, cuja raiz está no espírito de ambição da criatura humana, pronta a buscar o máximo pelo mínimo, fazer com que outros trabalhem por si e alimentar o sonho do ócio, sabe-se lá por quanto tempo. Uma das fontes mais antigas, o livro Deuteronômio (22:19) indica que “A teu irmão não emprestarás com juros, nem dinheiro, nem comida...”. A Torá, dos judeus, chama os juros de ‘mordida’ (neshech), alusão ao golpe de uma serpente para atacar a presa iminente, uma bela imagem, enquanto a Lei da Shari’ah, dos árabes, condena, genericamente, a usura, a ganância e a cobrança de juros (riba), mas institui, nas práticas comerciais um modelo que pode crescer no mundo – o que já vem ocorrendo – o emprestador e o tomador assumem uma parceria no negócio.

    Os chamados ‘fundos islâmicos’ avançam no mundo, seja pelo número de adeptos do islamismo (cerca de 1,6 bilhão de pessoas), pelo aumento dos recursos advindos dos altos preços do petróleo, ou pelo menor risco que apresentam.

    Max Weber (1864-1920), intelectual alemão, jurista e considerado um dos fundadores da sociologia, tentou decifrar a influência de princípios religiosos no mundo ocidental, época em que as complexas fórmulas e ferramentas financeiras ainda engatinhavam. Em sua obra mais conhecida “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, baseada em ensaios escritos entre 1904 e 1905, Weber põe a vontade de ‘ganhar mais’ dentro de uma realidade histórica do homem de todos os cantos do mundo, enquanto o capitalismo advém de um sistema, uma racionalização dessa vontade. A diferença trazida pelo sociólogo está no princípio da acumulação, fruto do trabalho, levado à conta de caminho da salvação.

    As teses reformistas de Lutero (Martin Luther, 1483-1546), alemão e depois do francês Calvino (Jean Cauvin, 1509-1564), foram contrapostas às do catolicismo, um sistema produtor do ascetismo, de retirada do homem do mundo para agradar a Deus, condição em que o trabalho se transformava em castigo. Lutero cansou-se do papado, enfrentou-o, denunciou o comércio das indulgências e acabou por fincar as bases do protestantismo. A frugalidade da vida de seus seguidores, bem conhecida pelo estilo dos puritanos, aliada ao trabalho, que recolocava o homem no mundo para chegar ao paraíso, desdobrou-se por vários países que viriam posicionar-se, no decorrer do tempo, com destaque na escala econômica.

    Recentemente, um estudo desafiador de outros dois alemães, Sascha O. Becker e Ludger Woessmann, da Universidade de Munique (versão de abril de 2007), conclui que o desenvolvimento econômico de cidades e países de matriz protestante, na Europa, deveu-se não à ética do trabalho, mas à ética da educação. A conclusão é simples e convencedora. Os protestantes tiveram de se instruir, alfabetizar-se, para ler a Bíblia, o que se transformou em um impulso para o conhecimento. De fato, toda acumulação tecnológica advém da soma de saberes, que em nenhuma hipótese dispensa a educação.

    Com toda ou meia razão, Weber apontou a eleição do trabalho pelos protestantes como ingrediente necessário à vida. E a teologia calvinista suprimiu o caráter pecaminoso dos juros.

    O espiritismo não tem uma teoria específica para os juros, por si mesmo um conceito elástico, dadas as variações monetárias, resultados de mudanças de preços, o que altera o poder aquisitivo da moeda em dois tempos. Mas as tem claras sobre o trabalho e a riqueza, cuja legitimidade não admite vantagens desonestas de uns sobre outros. Indiretamente, toca nos juros, os chamados abusivos, que vão além da correlação de preços. É o caso em que o dinheiro se transforma em ‘emprego’. O conceito universal defendido pelos espíritos é o de que, mesmo sem necessidades materiais (seria pelos bens acumulados), o homem não se isenta da “obrigação de ser útil, de acordo com suas possibilidades, nem do dever de aperfeiçoar a sua inteligência ou a dos outros, o que é também trabalho”.

    A tese espírita, que nada tem a ver com a de salvação, por inexistirem escolhidos ou descartados do paraíso, pode conciliar as de Weber, Becker e Woessmann, na medida em que o trabalho, auxiliado pela educação, engrandece o espírito, pela acumulação de conhecimentos e expansão da inteligência. O ingrediente faltante, o pêndulo ético, procede da ausência do orgulho e do egoísmo, restando apenas “a desigualdade do merecimento”.

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    José Rodrigues - Jornalista e economista. Integra o Centro Espírita Allan Kardec, de Santos (SP) e preside a Ação de Recuperação Social (ARS), entidade atuante no segmento de famílias de baixa renda. É um dos coordenadores do site PENSE – Pensamento Social Espírita. Texto originalmente publicado no periódico espírita gaúcho Opinião, em agosto de 2008.

    Para saber mais sobre o tema:
    http://www.hks.harvard.edu/pepg/PDF/Papers/PEPG07-04_Becker_Woessmann.pdf
    e suplemento EU & Fim de Semana do jornal Valor Econômico, de 28/03/2008.