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  • Na Teologia do Mercado, Nunca Há o Bastante
    Escreve: José Rodrigues
    Em: Agosto de 2009

  • Os fundamentos éticos e sociais do espiritismo nunca estiveram tão atuais como no presente. Todo o discurso apresentado pelos espíritos, a partir dos meados do século 19, é calcado no que mais tarde se chamaria de desenvolvimento sustentável, com abrangência dos ambientes físico e social.

    Há que se refletir sobre acontecimentos contemporâneos, em torno da viabilidade do planeta, quanto do comportamento humano, visto em suas amplas relações, para melhor se avaliar a contribuição do pensamento espírita, antecipado no tempo e ainda futurista. Para tanto, citem-se apenas dois itens da agenda mundial, o clima, ameaçado pelo aquecimento fora de proporções e a crise financeira, deflagrada pela economia norte-americana, com transbordamento internacional. Diagnósticos de um e de outro têm como base a ação humana, seja pela desabalada ânsia de consumo, no caso, desigual, ou pela ambição desmedida de uma elite que se julga sábia, despreocupada com o próximo.

    No item do consumo, a economia mundial vinha vivendo um ciclo de autêntica farra, sem exceção do Brasil, com valorização acelerada dos imóveis, entupimento das vias públicas por veículos, sinais de maior demanda de bens naturais. Mas como se diz em jargão da economia “todo avião que sobe, desce”, as curvas ascendentes fizeram um ‘joelho’ e depois declinaram. Foi o soluço da Terra. Profissionais bem pagos atuaram como vendedores do insustentável, autênticas ilusões.

    Picos e vales nas curvas da economia são tidos como normais pela gente do colarinho branco, mas resultam de um primado, o da aceitação da esperteza e das diferenças de classes. De fato, sob uma visão social e moral, guardadas as justificativas advindas de catástrofes climáticas, que hoje também se atribuem à ação humana, são práticas nas quais está a mais valia, avaliada por Marx.

    É a oportunidade de se introduzir o pensamento espírita que define os conceitos de necessário e útil. Disseram os espíritos que “só o necessário é útil”, complementando com “o supérfluo nunca o é”. Daí decorrem verdadeiras alfinetadas dos espíritos sobre o mau uso dos bens da Terra e às equivocadas acusações às nossas carências. “A terra produziria sempre o necessário, se o homem soubesse contentar-se com o necessário. Se ela não lhe basta a todas as necessidades, é que emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário”.

    Esse homem que conhecemos quer trocar de carro a cada ano, de computador a cada semestre, sonha com que a bolsa de valores trabalhe para si, está com peso acima do saudável, desperdiça o tempo pelo ócio imerecido, deixa-se enganar pela competição consumista que ‘vende’ a aventura de tresloucados pilotos dos circuitos automobilísticos... ante anseios teóricos de um mundo de equilíbrio. Uma equação difícil de ser fechada.

    Atente-se para alguns desafios, como os do crescimento da população mundial, sob controle desigual. Dos 3,0 bilhões que éramos por volta de 1960, chegamos aos 6,6 bilhões no presente. Poderemos alcançar os 9,0 bilhões em 2050. É preocupante, na medida em que os países classificados como desenvolvidos já apresentem baixíssima taxa de avanço populacional, até mesmo decréscimo, como Japão, (-0,02% ao ano) e Alemanha, 0,07%, enquanto os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos nos quais estão 75% da população mundial, têm taxas de crescimento até acima de 2%, para a média mundial de 1,17%. A brasileira é de 1,26%, face a 3,0% há 40 anos.

    Esse quadro não é mais dramático porque Malthus errou. O pastor anglicano (1766-1834) que chegou a pregar a abstinência sexual dos pobres para não engrossarem o contingente de mal-alimentados, não previu o avanço tecnológico, que tem multiplicado a produtividade agrícola a taxas superiores às do aumento da população. A safra de grãos brasileira, nos últimos 17 anos, cresceu mais de 146%, ante uma área plantada de 24%. A taxa de fecundidade, da ordem de 5,8 filhos por mulher brasileira, na década de 1970, já está em torno de 2,0.

    São dados positivos, mas que ainda não nos livram de vergonhosas desigualdades no planeta, ainda com cerca de 22% de analfabetos, 800 milhões de subnutridos e menos de um por cento com acesso à internet, para ficarmos apenas nestes itens. Com esse quadro espiritual e materialmente comprometedor, cabe um chamado de Harvey Cox (*). Ele assim direciona: “Um mestre zen japonês certa vez disse a seus discípulos, enquanto expirava em seu leito de morte: ‘aprendi uma só coisa na vida: o quanto é o bastante’. Ele não encontraria lugar no templo do mercado, pois para este, o Primeiro Mandamento é nunca há o bastante”.

    (*) Professor e teólogo da Universidade de Harvard (EUA), em The Market as God (1999). Também citado por Ricupero (FSP/14.07.02).

    José Rodrigues, jornalista e economista, coeditor do site PENSE - Pensamento Social Espírita (www.viasantos.com/pense). Integra o Centro Espírita Allan Kardec, de Santos/SP.