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| Mediunismo no Sincretismo Religioso Escreve: Deolindo Amorim Em: Janeiro de 2010
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| O fenômeno do sincretismo religioso, no Brasil, é uma decorrência do processo de formação sociocultural do país. Já tratei deste fenômeno em livro intitulado Africanismo e Espiritismo (edição esgotada) com uma edição na Argentina, por iniciativa de Luis Postiglioni. Infelizmente, o último exemplar da 1ª edição, publicada por “Mundo Espírita”, no Rio de Janeiro, foi emprestado a uma estudante de sociologia, jovem universitária, que viera dos Estados Unidos e estava fazendo pesquisas de sociologia religiosa no Brasil, mas foi para seu país e, afinal, se esqueceu ou não teve tempo de me devolver o volume. Lá se foi o único exemplar que me restava da 1ª edição. (*)
O prof. Cândido Procópio fizera, antes, uma pesquisa, com uma equipe de alunos de sociologia, mas verdade é que até hoje ainda não se situou bem a situação do espiritismo nesse fenômeno cultu-ral. Sim, fenômeno cultural, porque empregamos o termo cultura, aqui, no sentido que ele tem nos contextos da sociologia e da antropologia, significando conjunto de instrumentos, peças de uso, técnicas, costumes e crenças, objetos de cultos, símbolos e valores. Tudo isso, em termos sociológi-cos, é cultura. Pois bem, o sincretismo religioso é um fenômeno cultural, convém repetir, porque nele estão amalgamados diversos elementos.
No Brasil, como noutros países, o sincretismo seria inevitável, pois tivemos, em nossa formação, três correntes notórias de influências iniciais: o elemento indígena ou nativo, com suas variações étnicas e religiosas; o europeu, notadamente o português; e o africano, por fim. É certo que, no bojo deste “caldo”, havia outras influências, como a judaica, fetichista, maometana, por exemplo. O ele-mento judaico, entretanto, não teve tanta influência como o africano. Sua participação nos primór-dios de nosso embasamento cultural não foi, a bem dizer, direta, mas através do português, que trouxe consigo muita sobrevivência judaica, especialmente por causa dos “cristãos novos”, que eram judeus convertidos à Igreja, muitos deles com medo da Inquisição.
O contingente africano, muito variado, aliás, é preponderante em nosso processo de aglutinação cultural. Mas o africano, quando veio para o Brasil, no tráfico negreiro, no período da escravidão, já estava muito mesclado, religiosamente falando. É preciso ter idéia da configuração geográfica e populacional do continente africano, o que, certa vez, procurei esclarecer, com ilustração de painéis, durante uma palestra na Federação Espírita de São Paulo, já faz muito tempo. A África teve diversas vias de penetração. Se, por um lado, recebeu infiltrações fortes do catolicismo, em determinadas faixas de seu território, também recebeu, por outro lado, outro contingente igualmente forte, que é o maometano ou islâmico. Grande parte dos africanos trazia a marca ostensiva do elemento árabe em seus cultos. De época remota, o africano também já incorporava remanescências judaicas, que não foram tão acentuadas, mas até hoje ainda aparecem aqui ou ali, de permeio com vários objetos de cultos.
Os escravos da faixa influenciada religiosamente pelo islamismo, mais vinculados culturalmente ao elemento árabe, revelaram suas inclinações no Brasil, apesar de todas as pressões que sofreram nas senzalas. E não foi fácil “fundir” os grupos da faixa islâmica ou maometana com os grupos de escravos oriundos da faixa cristã, isto é, católica e protestante, esta última, aliás, de pouca significa-ção. Todos eles, vendidos como escravos, ou mercadoria humana (!...) se “misturaram” à força, convivendo, trabalhando e sofrendo, mas praticavam seus cultos de maneira diferente, sempre que podiam.
Até hoje ainda se vê, por exemplo, o “turbante” em determinados terreiros. Que é isto? É uma reminiscência tipicamente árabe. E a “estrela de Davi” não lembra a longínqua presença judaica no africano, oriundo de certas áreas do continente negro? E não existem terreiros onde se exige que o crente ou visitante tire os sapatos? Que é isto, senão ainda o reflexo de velha bagagem cultural trazi-da de práticas muitíssimo recuadas na África, que era um continente heterogêneo cultural e religio-samente?
Tudo isto, afinal de contas, entrou no sincretismo religioso do Brasil, onde não existe, como disse um antropólogo ilustre, uma única religião em “estado puro”, uma única que não tenha mescla, não tenha enxertos. O próprio culto católico não é inteiramente original, pois recebeu muita coisa do paganismo greco-romano, como do judaísmo e assim por diante. A Igreja usou, em certos casos, o que um escritor católico, certa vez, chamou de “tática de ocupação”: penetrou no paganismo, entrou pacificamente e, depois, retirou o que lhe convinha, incorporou tudo à liturgia, mudou a forma e criou, então, culto “original”.
No Brasil, defrontando-se com os africanos, o catolicismo insistiu muito para que deixassem as crenças e os ritos de origem. Com o tempo, evidentemente, e devido à preponderância social do catolicismo, a Igreja conseguiu converter o africano, mas este ainda relutou e lutou muito para não abrir mão de suas crenças, de seus símbolos, de seus valores. Alguns grupos, especialmente os que tinham origem na faixa de maior projeção islâmica, não quiseram “mistura” nem com os próprios africanos de outras procedências religiosas. Os escravos de cultura maometana, foram os últimos em ceder terreno ao catolicismo. E cederam porque não havia jeito, não tinham condições de conservar a religião de origem. Entre eles havia grupos bastante adiantados; alguns já possuíam técnicas que podiam competir com o europeu da época. Mas foram todos “jogados” no país, indiscriminadamente, como se fossem rebanhos de gado!... No entanto, havia muitos aspectos bem distintivos entre esses grupos, o que somente mais tarde foi possível reconhecer e esclarecer, em virtude dos estudos e das pacientes pesquisas de antropólogos e sociólogos que, desapaixonadamente, estudaram o elemento africano do ponto de vista cultural.
Com materiais tão diversificados na origem e nas manifestações religiosas, o sincretismo teria de tomar corpo no Brasil, forçosamente. No fundo de muitas práticas religiosas, evidentemente, existe o elemento mediúnico, às vezes de forma exótica ou estranha, como existe a crença nos espíritos dos mortos. Quando, porém, a doutrina espírita começou a ser divulgada no Brasil, tudo isso, inegavelmente, já estava “enraizado” no país. Justamente por isso, a prática espírita não pôde ficar imune de certos contatos, que se tornaram absorventes em muitos casos. E, deste modo, a maioria dos autores, inclusive homens de cultura especializada, ainda insiste em situar o espiritismo nos contextos de cultos afrocatólicos. É um engano difícil de ser removido. Infelizmente.
É preciso dizer, porém, que o espiritismo é o corpo de doutrina, codificado por Allan Kardec, dando interpretação científica aos fenômenos mediúnicos e deduzindo, daí, profundas consequências filosóficas, morais, religiosas, sociais e assim por diante. O espiritismo nada tem, portanto, com rituais, símbolos, imagens, “pontos” de terreiros etc. Nada disto. O sincretismo afrobrasileiro é um fenômeno que deve ser estudado com lúcido critério analítico, como capítulo da sociologia religiosa, mas é necessário que se conheça também o verdadeiro caráter do espiritismo, a fim de que não se continue a confundir uma coisa com outra.
(*) O livro Africanismo e Espiritismo foi relançado pela editora CELD (Centro Espírita Léon Denis), do Rio de Janeiro-RJ, em 1993.
Fonte: Artigo publicado originalmente no Anuário Espírita - 1973, ano X – nº 10 – IDE – Instituto de Difusão Espírita, de Araras-SP – Diretor: Salvador Gentile. Digitalizado pelo PENSE.
Deolindo Amorim nasceu na Bahia em 1906 e desencarnou no Rio de Janeiro, em 1984. É considerado, ao lado de Carlos Imbassahy e Herculano Pires, um dos maiores pensadores espíritas das Américas. De estilo professoral, extrema-mente didático e elegante, Deolindo foi um dos maiores divulgadores do espiritismo como cultura e voltado para a análise de questões da atualidade. Fundou o Instituto de Cultura Espírita do Brasil (Iceb), foi um dos idealizadores da Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (Abrajee) e graças ao seu empenho, em conjunto com a Liga Espírita do Brasil, realizou-se no Rio de Janeiro, em 1949, o II Congresso Espírita Pan-Americano. Obras: Espiritismo e Criminologia; O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas; Africanismo e Espiritismo; O Espiritismo e os Problemas Humanos; Idéias e Reminiscências Espíritas; Allan Kardec, o Homem e o Meio, dentre outras.
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